Algorab – Rodrigo Linhares

Período: 27.09.17 a 04.11.17

Horário de visitação: de terça à sexta, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 17h.

“Aquilo que vemos vale – vive – apenas por aquilo que nos olha.”
(Georges Didi-Huberman)

Algo de assombroso e ao mesmo tempo familiar nos encara de volta quando olhamos para as imagens de Rodrigo Linhares. O olhar parece desorientado, perdendo-se no jogo de representações proposto pelo artista. As cenas são quase sempre labirínticas, repetindo-se em camadas. Logo reconhecemos que aqueles lugares são eventualmente os mesmos onde estamos – e que a representação do próprio artista, em autorretratos, também se multiplica de forma semelhante, em um limite entre ausência e presença, superexposição e desaparecimento.

Começamos a notar esse processo com a fotografia talvez mais enigmática desta exposição, vista apenas a partir do segundo andar da galeria. Ocupando toda a parede dos fundos da área externa, quase escondida atrás de uma árvore, a imagem retrata o espaço da cozinha exatamente onde estamos posicionados ao olharmos para a foto. Nela, Rodrigo aparece em primeiro plano à esquerda, com o rosto encoberto por uma camiseta, mas também em uma imagem ao fundo, à direita, reproduzida em formato retangular que lembra o tamanho de um espelho – um reflexo, no entanto, impossível, sem o referencial ali presente. A ideia de uma desorientação, “experiência na qual não sabemos mais exatamente o que está diante de nós e o que não está, ou então se o lugar para onde nos dirigimos já não é aquilo dentro do qual seríamos desde sempre prisioneiros”, como descreve Didi-Huberman, atinge aqui seu ponto máximo.

A imagem produz também outro efeito revelador no procedimento do artista: se há uma expansão do espaço, que vai se multiplicando em camadas, o tempo parece preso ao instantâneo – o registro de uma ação que poderia estar acontecendo naquele momento, assistida através do vidro da cozinha. Claro que a dúvida não dura muito tempo pela simples razão das imagens serem em preto-e-branco. Por outro lado, a ausência de cores reforça o sentido “quase documental” daquelas fotos . O termo é associado ao trabalho do artista canadense Jeff Walls, que abriu mão da fotografia colorida em 1996 como uma estratégia de reforçar o aspecto instantâneo de suas imagens encenadas. A ideia se aplica bem às situações criadas por Rodrigo, entre o voyeurismo de se olhar através uma realidade crua, por vezes banal, e uma ação realizada especialmente para a câmera.

Se a fotografia já se apresenta naturalmente como uma mídia especular – um “espelho do mundo”, seja ele translúcido ou opaco, – o autorretrato reforça ainda mais essa característica. Nesta performance fotográfica mais recente, Rodrigo volta a explorar a noção de espelhamento de outra maneira. Além de sua própria imagem e dos ambientes ao seu entorno, um novo elemento passa a entrar no jogo de reaparições e duplicidade visual. É a figura de um corvo, desta vez, que parece contaminar todos os espaços e situações – seja nas sequências de imagens com representações variadas do animal ou como pura referência nos movimentos de transfiguração entre homem-pássaro encenados por Rodrigo.

Em uma dessas fotos, o artista aparece com apenas um olho à mostra e o resto do rosto ocultado pela camiseta parcialmente vestida. Embora esteja de perfil, por alguns instantes imaginamos o ver em posição frontal – o que torna o fato de vermos apenas um olho mais intrigante e sugestivo, quando se lembra das lendas associadas ao corvo. Em outra sequência, ele encara a câmera da mesma maneira que o faz o pássaro, reproduzido em uma imagem nas mesmas proporções que as suas, reforçando uma espécie de fusão entre sua própria identidade e a do animal.

Associado a uma série de significados simbólicos, o corvo vai aparecendo na exposição tal como foi surgindo para o artista em seus primeiros indícios: uma sequência de imagens acumuladas nas paredes do ateliê que aos poucos foram contaminando sua própria representação naquele espaço. O título da mostra também surge a partir dessa ideia. Na astrologia, algorab faz referência a a nomenclatura em árabe de uma estrela localizada na constelação de Corvus.

Mas é pela ideia de aparição, de imagens que retornam de tempos em tempos em busca de novas leituras, que a figura do corvo pode ser melhor compreendida nesta exposição. É nesse sentido que Didi-Huberman fala sobre a desorientação mencionada acima – como um dos paradigmas que explicam o “estranho-familiar”(Unheimliche) no conceito freudiano, uma inquietação sobre algo reconhecível porém aterrorizante, que foge à racionalidade. O animal também é visto de forma semelhante no poema de Edgar Allan Poe, sua representação literária mais clássica: um pregador da destruição que repete ao narrador desiludido a mesma frase desoladora: “Nunca mais, nunca mais.”

Sua imagem, ao contrário, não parece ter desaparecido. Em tempos sombrios, ela se mostra cada vez mais presente, encarnada sob outras formas e figuras talvez não tão aterrorizantes, mas não menos familiares.

Nathalia Lavigne